Artigo Anterior

As palavras são delas: Patrícia Reis

Próximo Artigo

Retratos do Brasil, por Naia Ceschin

Entrevistas 9. 4. 2018

As palavras são delas: Cristina Norton

by Irina Chitas

 

Perguntámos a escritoras portuguesas o que é a palavra enquanto catarse. Esta é a história de Cristina Norton.

Cristina Norton © Nuno Sousa Dias

O que é que sente quando escreve que não sente em mais nenhuma ocasião?

Uma libertação, um misto de alegria e tristeza. Não sendo um réptil, chego a comparar-me às tartarugas que vão desovar nas praias depois de nadar durante meses, sem saber o que vai acontecer com as crias. Assim, confiante, eu entrego os meus textos, desejando o melhor para eles.

O que é que a levou a começar a escrever?

Ler muito desde criança. Os bons romancistas deram-me vontade de escrever, de imitar algo que mexia comigo. Esse foi o começo, aos 8 anos. Percebi mais tarde que foi uma excelente escola até encontrar a minha própria voz, o meu estilo.

Qual é a sua opinião sobre o mito do artista atormentado? Acha que há uma ligação direta entre um autor e um certo sentimento de melancolia?

O acto de escrever, de inventar e viver mentalmente a vida das personagens, é uma “dissociação do eu”, ou seja, eu deixo de ser quem sou para transformar-me num rapaz, numa assassina, numa mulher maltratada. Pode ser uma forma de loucura controlada por mim, que convoco quando escrevo. Nunca fui melancólica, gosto de amar, de rir, de dançar, de viver plenamente. Há momentos em que sinto uma dor ou tristeza imensa, porque a vida não é só alegrias.

Considera a escrita como uma catarse, como uma forma de descodificar as emoções - e, talvez, até de cura interior?

É possível. No meu caso, prefiro a imaginação e a fantasia, nunca escrevo sobre mim. O dia que o fizer, será numa biografia ou na história da minha família. Sinto, sim, que quando não escrevo, começo a ficar de mau humor.

Que impacto pensa que a sua escrita tem em quem a lê?

Pelas reações que me chegam dos leitores, sei que ninguém fica indiferente, choram ou riem, identificam-se com algumas personagens ou situações, perguntam-me quando publico um novo livro. Penso, ou melhor, espero que tenham as mesmas sensações que eu tive quando escrevi os romances ou os contos.

Explorámos a escrita enquanto catarse no artigo Afloração da Alma, publicado na Vogue Portugal de abril, já nas bancas.